Geração distribuída está mudando o cálculo das obras elétricas urbanas

Matheus Vinicius Voigt
Matheus Vinicius Voigt

Sendo profissional da área de engenharia elétrica e gestão de projetos, Matheus Vinicius Voigt mostra que a definição sobre como estruturar a geração de energia pode determinar o próprio desenho de um projeto antes mesmo que as decisões técnicas mais visíveis entrem em cena. A escolha entre centralizar ou distribuir a geração interfere no projeto elétrico desde a fase de concepção e pode produzir consequências nas etapas seguintes. Dessa forma, não se trata de um detalhe a ser solucionado posteriormente, e sim de um fator com impacto no projeto como um todo.

Nas próximas linhas, você compreenderá por que essa escolha tem um peso equivalente ao próprio dimensionamento da rede e por que projetos públicos ainda a tratam como secundária, quando deveriam colocá-la no centro do planejamento.

Custos, escala e operação ajudam a explicar a preferência pelo modelo centralizado

O modelo centralizado, por sua vez, é caracterizado por uma usina distante que produz energia para uma região inteira, enquanto a rede de distribuição urbana tem a função de receber e redistribuir essa carga. Trata-se do projeto mais comum em cidades brasileiras, apresentando bom desempenho enquanto a demanda aumenta de forma previsível.

O problema manifesta-se quando a rede necessita de crescimento acelerado ou quando um trecho fica isolado em virtude de falha na transmissão. Em tais circunstâncias, toda a cidade depende de um único ponto de origem, e qualquer obra corretiva na geração afeta bairros inteiros simultaneamente.

Matheus Vinicius Voigt pondera que tal dependência raramente é mencionada no discurso de inauguração de uma obra, contudo, representa o primeiro fator a ser considerado quando a cidade decide expandir a rede alguns anos depois.

Quando a geração muda de lugar, também mudam as premissas que orientam o projeto

A geração distribuída inverte essa lógica: painéis solares instalados em edifícios públicos, pequenas usinas locais ou microrredes de bairro produzem parte da energia consumida nesses locais. Tal medida visa reduzir a perda na transmissão e criar uma rede menos dependente de um único fornecedor.

Matheus Vinicius Voigt
Matheus Vinicius Voigt

De modo geral, Matheus Vinicius Voigt aponta que, quando esse modelo é incorporado ao projeto desde a fase inicial, o critério de aquisição de equipamentos sofre alterações substanciais. A rede necessita de um inversor compatível, proteção elétrica bidirecional e um sistema de gestão capaz de equilibrar a energia local com a energia vinda da concessionária. Esse é um aspecto que uma obra projetada apenas para receber carga não considera.

Esse tipo de mudança de critério raramente aparece no orçamento inicial, porque exige uma decisão técnica que deve ser tomada antes da licitação, não depois de a obra já estar em andamento e o projeto elétrico definido em sua fase final.

O valor de implantação é apenas uma parte da conta que acompanha o projeto ao longo dos anos

O engenheiro Matheus Vinicius Voigt acrescenta que a manutenção das redes centralizadas é concentrada em pontos de grande porte, o que facilita a fiscalização, porém também concentra o risco: uma falha na geração principal pode comprometer todo o sistema. A rede distribuída dissemina esse risco em diversos pontos, facilitando a sua localização e a implementação de medidas corretivas em caso de falha.

Essa diferença é evidenciada em situações de pico de consumo ou eventos climáticos severos. Cidades com geração distribuída conseguem manter parte da rede funcionando mesmo quando um trecho principal é interrompido, enquanto o modelo centralizado tende a interromper tudo o que está ligado à mesma linha.

A comparação entre os dois modelos deve abranger diversos aspectos, não se restringindo ao custo de instalação, como sugere Matheus Vinicius Voigt. A geração distribuída, embora implique em um custo mais elevado na obra, reduz o gasto com manutenção e a perda técnica ao longo dos anos seguintes. Portanto, é fundamental que o projeto seja concebido considerando o ciclo de vida inteiro da rede, e não apenas a primeira nota fiscal.

Perfil de consumo e características urbanas orientam a arquitetura mais adequada

Não existe um modelo único que se aplique indistintamente em todas as situações. A infraestrutura de uma capital consolidada difere significativamente da de um bairro novo, que não conta com uma infraestrutura elétrica prévia. O que altera o resultado é a decisão baseada em critérios técnicos, não em hábitos ou tradições.

Um projeto elétrico urbano de sucesso é aquele que integra a geração à engenharia, não a trata como um item isolado do orçamento. No entendimento de Matheus Vinicius Voigt, esse olhar amplo é imprescindível para distinguir uma obra que resolve o problema atual de outra capaz de evitar que a mesma questão reapareça no futuro.