Marcello José Abbud, diretor da Ecodust Ambiental, alerta que, entre os resíduos sólidos urbanos que mais crescem em volume nas últimas décadas estão os produtos de higiene de uso único, com destaque para as fraldas descartáveis.
Discretos no cotidiano das famílias, esses produtos representam uma fração expressiva dos resíduos gerados em residências com crianças pequenas e idosos, e seu descarte inadequado ou destinação em aterros gera impactos ambientais de longa duração que raramente recebem a atenção que merecem.
Se você atua na gestão ambiental ou quer entender melhor os desafios do saneamento urbano, este artigo traz dados e perspectivas fundamentais sobre esse tema. Descubra mais a seguir!
A composição das fraldas descartáveis e o problema da degradação
As fraldas descartáveis são compostas por uma combinação de materiais que inclui polietileno, polipropileno, celulose, polímeros superabsorventes e adesivos sintéticos. Em termos práticos, essa combinação de materiais é o que garante a eficiência do produto em uso, mas também o que torna sua degradação no ambiente extremamente lenta. Estima-se que uma fralda descartável leve entre 200 e 500 anos para se decompor em condições naturais, período durante o qual seus componentes plásticos sofrem fragmentação progressiva, originando microplásticos que se dispersam pelo solo, pelos recursos hídricos e pela cadeia alimentar.
Conforme analisa Marcello José Abbud, o problema é agravado pelo fato de que as fraldas chegam aos sistemas de coleta contaminadas com resíduos biológicos, o que as classifica tecnicamente como resíduos infectantes em determinadas interpretações regulatórias, mas que, na prática, são descartadas junto ao lixo doméstico comum na esmagadora maioria dos municípios brasileiros. Por conseguinte, essa mistura compromete a qualidade dos resíduos recicláveis coletados junto e eleva os custos de operação das usinas de triagem.
O volume gerado e seu peso nos sistemas municipais de resíduos
O Brasil é um dos maiores mercados consumidores de fraldas descartáveis do mundo, impulsionado pela combinação entre uma população com grande número de crianças em idade de uso e uma parcela crescente de idosos que dependem de produtos de incontinência. Estimativas do setor indicam que bilhões de fraldas são descartadas anualmente no país, representando uma fração relevante do volume total de resíduos sólidos domiciliares gerados nas grandes cidades.

Na avaliação de Marcello José Abbud, esse volume tem impacto direto sobre a vida útil dos aterros sanitários brasileiros, que já operam próximos à capacidade em diversas regiões metropolitanas. Como as fraldas não são recicláveis pelos métodos convencionais e têm densidade relativamente baixa, ocupam volume desproporcional nos aterros em relação ao peso, acelerando o esgotamento da capacidade de disposição final disponível. Reduzir o volume desse resíduo nos aterros é, portanto, uma necessidade tanto ambiental quanto operacional para os sistemas municipais de gestão.
Alternativas disponíveis e experiências internacionais
Diversos países avançaram na busca por alternativas ao modelo atual de descarte de fraldas em aterros. Tecnologias de reciclagem específicas para produtos de higiene absorventes já estão em operação comercial em países como Itália, Japão e Holanda, onde plantas industriais dedicadas processam as fraldas coletadas separadamente, recuperando a celulose, os polímeros superabsorventes e os plásticos para reaproveitamento em novos produtos. A viabilidade econômica dessas plantas depende, no entanto, de escala de coleta suficiente e de mercado para os materiais recuperados, condições que começam a se configurar em cidades de grande porte.
Segundo Marcello José Abbud, o caminho para o Brasil passa pela estruturação de sistemas de coleta diferenciada para produtos de higiene descartáveis em municípios com escala suficiente, combinada com investimento em tecnologias de processamento adaptadas às condições locais. Na prática, experiências-piloto em algumas cidades brasileiras já demonstram a viabilidade técnica do modelo, mas sua expansão depende de regulamentação específica, financiamento adequado e engajamento da indústria fabricante no financiamento dos sistemas de destinação.
Fraldas ecológicas, produtos reutilizáveis e o papel da educação ambiental
Paralelamente ao desenvolvimento de tecnologias de reciclagem, cresce o interesse por alternativas que reduzam na origem o volume de resíduos gerados. As fraldas de pano modernas, muito diferentes dos modelos tradicionais, incorporam materiais técnicos de alta absorção e praticidade de uso comparável às versões descartáveis. Estudos de ciclo de vida indicam que, quando lavadas com eficiência energética e hídrica adequada, as fraldas reutilizáveis apresentam impacto ambiental significativamente menor do que as descartáveis ao longo do período de uso de uma criança.
Conforme reforça Marcello José Abbud, a educação ambiental tem papel determinante nessa transição. Isso porque famílias bem informadas sobre os impactos ambientais das fraldas descartáveis e sobre as alternativas disponíveis tendem a fazer escolhas mais conscientes, especialmente quando essas alternativas são economicamente acessíveis e apoiadas por políticas públicas de incentivo. Dessa forma, a combinação entre tecnologia de reciclagem, produtos alternativos e educação ambiental é o que permite construir uma solução abrangente para um problema que, apesar de cotidiano e silencioso, tem escala e impacto que justificam atenção prioritária na agenda do saneamento urbano brasileiro.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez





